SACRIFICIOS PARTE IV

PARTE IV

No culto afro mesmo, não utiliza-se apenas o sacrifício de animais como o ÚNICO sacrifício! Existe todos os outros, abnegação, privação, etc…. jejuamos, evitamos utilizar determinadas cores, comer certos alimentos, oferecer “gbáduràs” (rezas), “orikis” (recitaçao de versos divinos), vigílias, comidas secas (sem sacrifício de animais) e então o “ebó-ejé pupà” (sacrifício animal); como pode-se perceber este último é o último recurso, a última apelação e somente o jogo ou o Orixá pode permitir ou não.

Infelizmente algumas casas do culto perderam totalmente o conhecimento dos ritos antigos e executam, realmente, uma verdadeira MATANÇA. Uma chacina sem precedentes em nome de um ritual, o que claramente o culto condena.

Deve ser sacrificado apenas o suficiente, o que baste. O exagero é por conta do homem, e não da divindade. Isto acontece devido ao esquecimento às leis do sacrifício, e da façanha de um culto de homens para os homens pois, infelizmente nesta forma de exercer o culto, Orixá não é suficiente – os egos inflados dos sacerdotes que falam “em nome do Orixá”.

Como todo o sacrifício, existem leis muito rigorosas a serem cumpridas, como ensina a sabedoria antiga, e não é diferente para o sacrifício de animais, ou o que seja! Primeiro há de existir a necessidade prima deste sacrifício; perguntar à divindade se não existiria outra chave. Segundo, no caso de afirmativo, saber exatamente o que deve ser sacrificado e como deve ser sacrificado. Sabendo-se isso, deve-se pedir à divindade que nos guie ao animal certo, que deve ser recolhido com carinho. Devemos nos lembrar que este ser foi designado pela divindade para servir à Deus e redimir o mal de alguém ou de uma comunidade, ele será o mensageiro das boas novas, e merece todo o respeito, carinho e consideração por tal. Ao chegar o momento deve ser banhado com os axés, enfeitado devidamente, e deve-se saber se a divindade o aceita, se é o ser certo. No caso de afirmativo, deve-se saber se o ser aceita ser sacrificado e então entra o preceito da folha, da cabeça e/ou do jogo – O jogo entra sempre!! Uma vez que esteja tudo ok, então é executado o sacrifício exatamente como determina a divindade. Sempre no clima do respeito e agradecimento.

Por fim, tudo saindo como deveria ser, a graça encaminhada, segue-se a festa pelo sucesso do ritual. A carne do animal que não entrar no sacrifício deverá ser consumida, por todos da comunidade em uma reunião, celebração de grande alegria. Alegria porque a Graça está a caminho e Deus mais uma vez nos foi bondoso e fiel, não nos esquecendo e a alma do ser sacrificado também conseguiu cumprir o seu caminho (destino), e agora está advogando por nossa causa tendo se elevado imensamente na ordem Cósmica, tal qual Jesus.

No Awó (culto, ou mistério) africano, todos nós estamos aqui para cumprir um destino em relação à Ordem Cósmica. E não para desfrutarmos a vida de modo egocêntrico, para o próprio gozo dos sentidos. Podemos gozar o que o Orixá e Deus (Olodumaré) nos permite em sua infinita generosidade, mas sem esquecer que estamos em MISSÃO aqui, e que devemos retornar à Deus o mais pronto ao terminá-la, aceitando todos os sacrifícios que consigam nos levar até Ele (como está escrito no Livro de Ifá no Odù Irosun Mejì – Orì X Elenìnì!). Assim como o animal, aceitamos todos os sacrifícios de nossa existência, que não é menos sacrificada.

CONTINUA ………………….

SACRIFICIOS PARTE III

PARTE III

 Há muitas outras formas de sacrifício, como vimos nos conceitos acima, ou a privação (como o jejum por exemplo); a renúncia (deixar de usar uma cor, deixar de adquirir um bem que lhe cabe, etc); a abnegação (desfazer-se de uma coisa que se está apegado, cumprir um trabalho ou obrigação apenas com o interesse do sacrifício, etc), assim como a imolação, o holocausto, entre outras várias formas, tendo sempre em comum o interesse na redenção ou favor divino à custa da dor, do desapego, da submissão ao poder divino.

 Ora, uma certa pergunta que normalmente não cala em nossas mentes : “- Se existem tantas outras formas de sacrifício, porque recorrer à esta, em que se sacrifica uma vida desta maneira?”  A resposta já está colocada acima: cada sacrifício é capaz de redimir um pecado, um mau-karma, o que seja e que, dependendo do mal, é necessário um sacrifício cada vez maior. Haja visto Cristo, que pediu ao PAI: “Afaste de mim este cálice!”, mas ao sentir a negativa do PAI, logo completou: “seja feita a Sua vontade e não a minha!”.

 Então agora outra pergunta: “Seria Deus tão cruel para escolher a bel prazer este tipo de sacrifício, podendo escolher outros, e ainda executá-lo desde os Céus com requintes de total impiedade e crueldade?” Acho que fica muito claro que não havia outro sacrifício para aquele mal, para consertar a deformidade da época. Nem toda a oração ou jejum do mundo – sacrifícios que Cristo executava a miúde poderiam corrigir esta situação. Ou será que faltava consciência da humanidade acerca de seus erros e necessidade reparação?

 Na Índia, com a chegada da Era de Kali, Saraswati aparece e apresenta o japamala (rosário oriental), instaurando a ordem do sacrifício pela recitação de mantras para acabar com o mal, a ordem desta era de Ferro, já que os conhecimentos dos antigos rituais e comunhão com Deus estariam esquecidos.

 Semelhante ao que a Virgem Maria, em suas aparições, também solicita: Rezem! Mas nenhuma das duas está se referindo ajoelhar-se 5 minutos e rezar uma dúzia de Pai-Nossos ou Ave-Marias, ou Hare Krisnhas, ou Namah Shivaias…. Mas rezar a cada dia milhares e milhares de vezes, como manda o sacrifício de orações, rezas e mantras antigos…. Existem até prescrições 100.000 mantras para Lakshimi, 500.000 para Durga… e assim vai…Sarawasti mesmo pede 100.000 mantras para conceder-lhe a Graça….Esta prescrição é para que consigamos gerar o sacrifício suficiente para corrigirmos uma situação, e mesmo assim, depende de que mal tentamos redimir.

 Junto com o mantra, obviamente, está implicado a concentração na divindade, a contrição, a devoção e a privação, pois tem que “sair” da vida para conseguir levar a cabo tantos mantras e sobretudo a perseverança e a fé, de levar até o final este sacrifício, assim como as promessas Cristãs…subir de joelhos uma escadaria sem fim…. E comprometer os joelhos e sua saúde, o esforço, a dor, a fé! E, novamente, dependendo de que mal, o tamanho do sacrifício cresce. Quantas escadarias são tão íngremes? Ou quantas vezes subí-las?

CONTINUA…….

 

SACRIFICIOS PARTE II

CONFORME FALEI ANTERIORMENTE VAMOS DAR CONTINUIDADE AOS TEXTOS SOBRE SACRIFÍCIOS…

 

PARTE 2

E entre muitas e muitas passagens, até chegar ao sacrifício maior!

 

“Deus ofertou o seu único filho, para que todo que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna!”  E assim Deus sacrificou o seu filho para salvar a humanidade…. (o próprio filho ???)

 

A humanidade toda estava em risco devido às suas más ações (pecados, crimes, más ações que geraram “mau-karma”). Deus necessitava resgatar estas almas e, para isso, teria que fazer um sacrifício à altura de tamanho mal. Conclui-se portanto que até mesmo Deus respeita suas próprias leis; ELE criou a lei do karma e toda ação levará a uma reação invariavelmente, a não ser que seja realizado um sacrifício que ative então a LEI DA GRAÇA, que redime a pessoa de seu próprio mal. Mas para ativá-la, como sabemos, é necessário um sacrifício à altura do mal realizado.

 

Por isso Deus simplesmente não ANISTIOU a humanidade, necessitava não quebrar suas próprias leis, mas contornar situação tão trágica, já que as almas, segundo a mitologia Cristã, estavam já “entregues às mãos de Lúcifer”, com quem Deus está “jogando uma partida” em que o botim do jogo são todas as almas humanas e a regência do Universo por uma era inteira, segundo a mitologia judaico-cristã.

 

Tamanho mal (ou pecados, ou mau-karma, como queiram chamar) só poderia ser redimido com um sacrifício que pudesse carregar e purificar o peso de todos estes pecados; e somente um ser que conseguisse esta proeza e aceitasse receber a imolação de Deus pelo bem de todos. Para isto somente um ser divino, para suportá-lo. Assim Jesus nasceu com este propósito e foi necessário aceitar passar por todo o sacrifício pelo qual o “PAI” o criou e o mandou para este mundo! Necessitou passar por torturas, humilhações e todo o sacrifício de uma morte sangrada, até a última gota! Somente assim carregaria e redimiria todo o mal executado. A citação desta passagem é necessária para que se ilustre muito bem a necessidade do sacrifício para se conseguir a redenção, mesmo não sendo ela da cultura africana, para mostrar como esta lei é universal e está presente em todas as culturas, atravessando os milênios.

 

Podemos dar mais um exemplo, de outra cultura igualmente milenar – a Hindú.

 

No Ramayana, escritura que narra a vida e os feitos do avatar Rama, encarnação divina de Vishnu, “a segunda pessoa da trindade- (trimurti)”, filho e encarnação de Deus tem uma passagem em que Rama é assassinado traiçoeiramente pelo demônio Ravna. Vishnu (o espírito de Deus que estava nos céus e tudo assistiu, seu espírito ou ekejì no Vaikunta {plano celestial}) enviou então uma corsa ao bosque onde estava o corpo de Rama, e esta, quando viu o corpo de Rama morto ao solo, aceitou o seu holocausto para que Rama volta-se à vida e termina-se sua missão. E assim Rama volta à vida e se depara com o corpo da corsa ao seu lado, o que ele lhe rende suas homenagens e parte novamente à sua missão. Claramente outro sacrifício de vida em nome de um bem maior.

 

• DO SACRIFÍCIO DE ANIMAIS

Olá meus amigos… postarei agora e nas próximas semanas  um série de 12 posts sobre SACRIFÍCIO DE ANIMAIS. Segue abaixo o primeiro.

PRIMEIRA PARTE …

Sacrifício é uma palavra que vem do latim e “corruptela” de duas palavras:

 

Sacro + Facere = “Fazer as coisas sagradas”.

 

Tradução - Ainda segundo diferentes dicionários : É um substantivo masculino que significa ato ou efeito de sacrificar; oferta de vítimas ou de donativos à divindade, revestida de certo ritual, para expiação da culpa ou para implorar auxílio; imolação; sofrimento. Privação voluntária em benefício de outrem; renúncia; abnegação.

 

Acerca das religiões - Sabemos que todas as religiões antigas compreendem o sacrifício como prática indispensável para se chegar à divindade. E todas, sem exceção de nenhuma, recorreram ao sacrifício de atos, minerais, metais, vegetais, animais e até mesmo humanos. Isto era uma prática universal. Somente depois, com o ingresso do modernismo e a era da ciência que estas práticas foram consideradas primitivas, bárbaras, supersticiosas, assim como todo o pensamento religioso.

 

Era a sociedade laica, a sociedade da ciência, antropocêntrica – o homem como centro e a “medida de todas as coisas”. Sem Deus! Deus virou superstição! A partir de então, foi quando surgiram “ordens esotéricas” e chamadas “religiões científicas” que eram contra o sacrifício de homens e animais; algumas das religiões “antigas” também se proclamaram contra e extingüiram tal prática, em nome da ciência, dos costumes da atualidade, em nome de uma boa imagem, e não em nome de uma fé!

 

O sacrifício de animais não é um preceito unicamente da religião africana; sabemos que o Judaísmo, o Hinduísmo e todas as outras religiões antigas, incluindo chinesas e outras orientais, praticavam o sacrifício de animais. E, na atualidade, tal prática ainda é realizada, conforme as respectivas circunstâncias e dogmas.

 

Na Bíblia cristã encontraremos, logo no início dos tempos, a passagem:

 

“E Deus preferiu a Abel que ofertou o seu melhor cordeiro em holocausto (holocausto =  significa queimar a vítima do sacrifício, consumi-la no fogo) à Caim, que ofertou o pior de sua colheita!”.

 

E assim várias outras passagens, como a de Abraão e o sacrifício de seu filho, que foi salvo no último momento, porque Deus resolveu então “comer” um cordeiro, à comer o filho de Abraão! Então o cordeiro foi ofertado em holocausto!

continua………………

ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS – PARTE II

ORÍ – A fisiologia divina e suas categorias

Orí então descerá e ocupará o seu lugar no Orí do corpo criado, através da chamada “moleira”, abertura no crânio do bebê. A princípio Orí assentar-se-á no cérebro (opolo) daquele corpo, onde comandará Orí Òde (cabeça externa).

ORÍ ÒDE - a cabeça externa caracteriza-se pela cabeça física (crânio, cérebro, sistema nervoso central, olhos, ouvidos, etc) e também pela personalidade e intelecto que resultará da interação daquele corpo com Orí Innú (cabeça interna); a cultura local onde se desenvolverá o indivíduo e o aprendizado que receberá desde o seu nascimento.

Orí òde é, além da cabeça física, a nossa pessoa como nós a conhecemos e como os outros a conhecem. É o mecanismo criado por Orí innú para lidar com o mundo exterior. Orí Òde é o nosso “eu exterior” – consciência.

ORI INÚ - a cabeça “interna” – para alguns o “Eu superior” ou “Eu interno” ou ainda , “Eu verdadeiro” – a nossa essência – alma! A nossa centelha divina! A semente do orixá. É este orì a que nos referimos na vida religiosa, a que na umbanda chamamos de “coroa”. É o que viemos na verdade desenvolver aqui nesta existência. É o mais importante e podemos dizer que é o centro do culto! Orì Inú – nossa verdadeira identidade (inconsciente ou ainda consciência total e divina) e que se esconde atrás de Ori Odê (consciência) e o controla mesmo sem que se dê conta

Quando nascemos orì, por sua natureza, identidade e caminho já possui um orixá (orì- alma/cabeça, xá- força/energia = força da cabeça) que seria um tutor de orì, um anjo-da-guarda, um guia, um mestre, nosso Deus!

Quem residirá em orì, e que poderá fazer isso ou aquilo é porque é da mesma, ou absolutamente semelhante natureza da matéria energética, caso o contrário nunca poderia. Por este prisma orixá é visto como um tutor do ori, tão somente tutor pois o Ori é soberanos em nossas vidas. (3)

Ori afirma um compromisso com seu tutor (Orixá), com o Bàbá Egún (Pai espírito) responsável pelo ìpònrí ancestral terreno que formou o seu corpo material e que zela pelo desenvolvimento da família a que Orí fará parte. Todos os contratos são firmados e/ou reafirmados diante de Olórúm e de Orúnmilá, e à medida que o são o destino se lhe vai fixando.

Ori é quem nos acompanha na viagem dos mares sem retorno, como descrito no Itan de Ògúndá Méjì.

Abaixo de Orí innú reside Elénìnìí (o opositor de Orí), no cerebelo (ipakó), responsável pelo esquecimento de Orí de sua missao, (Seria a razão) !

Ainda existe Ipín jeun – o estômago e o obo ati oko – os órgaos sexuais, que são os outros nós que Orí innú deve superar traduzidos em medo, desejo, ambiçao, vaidade, ciúme, ira, egoísmo, etc. (4)

ü RESUMO

Assim estudamos que a nossa divindade pessoal é o Orí inú (cabeça interna-alma), responsável pelo nosso destino e felicidade; que o nosso Orixá é o tutor espiritual de nosso Orí inú, mas que só poderá ajudar-nos se Orí o permitir; que em nosso Orí innú reside o nosso Odú (destino) e somente através de Orí o Odú pode ser transmutado e assegurando o cumprimento da missão confiada por Olodumaré; que devemos nos resguardar de Elénìnìí, o inimigo de nossa missão e alma – aquele que pode nos trazer sofrimentos.

E, finalmente, que nossa verdadeira essência, que devemos buscar, reside em Orí innú (cabeça interna-alma) e não em nosso Orí òde (cabeça externa-personalidade) que é tão somente o veículo de Orí innú aqui no Aiyé.

ü A INICIAÇÃO E O ORI INÚ

Na iniciação o “sacudìmento” (descarrego ou ebó) é um ritual que retira deste indivíduo todas as energias negativas e nocivas que ele carrega, um ritual de purificaçao de todos os males, assim como pensamentos, maldições, magias e todo o sortilégio de negatividades que foram lançados à este indivíduo antes dele entrar para a iniciação (o renascimento). São rasgadas suas roupas civis representando a rejeição de sua identidade anterior, assim como todos os traços culturais anteriores, para se abrir à nova cultura e identidade aspiradas.

Logo após outros atos, a queda do cabelo simboliza outro passo na desconstrução do indivíduo e consequente construção do novo que deve assumir.

O cabelo simboliza a força do Orì, pois é produzido por ele (orì odé- cabeça externa), portanto é um extrato do axè de Orì, por isso o cabelo é tão importante em magias e encantamentos. Assim como também é símbolo de vaidade e orgulho e ainda representa extratos de personalidade mais íntimo que não puderam ser despojados nos sacudimentos.

A queda do cabelo é um sacro-ofício feito ao Orixà. Um desejo de se despojar definitivamente de todo o passado para se abrir absolutamente puro para o enlace com o seu Orixà.

O cabelo não deve ser despachado no sacudimento, pois representa toda a força do Orì gerada até então, assim como os pensamentos, os sentimentos, os desejos, os vícios, o orgulho, a vaidade e todas as idéias plantadas na cabeça do indivíduo pela antiga cultura até então. Na queda do cabelo, além de se despojar disso tudo para se abrir mais ainda para um nascimento para o culto, o devoto sacrifica tudo isto ao seu Orixà. É mais um ato de entrega total. Por isso é tão importante! Mostra a intensidade da entrega e um desejo excelso de se “casar” puro com o Orixà e ter uma relação sem interferências, uma relação total, assinalando a importância em que ele se devotará ao Orixà.

Yá Ori

 

Créditos: GIL BELLO

ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS

ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS

 

“Ko sí Òòsà tí i dá´ni gbè léhìn Orí eni”

“Nenhum Orixá abençoa uma pessoa antes de seu Orí”

Este oriki (verso sagrado) não deixa dúvida sobre a suprema importância desta divindade pessoal, inclusive, acima dos Orixás! Orí porém, continua sendo um enigma no conhecimento popular do culto.

Traduzindo, Orí significa cabeça, entretanto quando se busca aprofundar algo mais os devotos hesitam, titubeiam, emudecem. Se Orí é a mais importante de todas as divindades, porque este desconhecimento? Principalmente de uma divindade que reside justamente dentro de nós? Porque, de todos as energias,  Orí é o mais misterioso?

ü  Voltando às Origens.

No princípio dos tempos, da criação, Odudua havia criado a Terra, Oxalá havia criado o homem, seus braços, pernas, seu corpo e Olórúm insuflou o èmí (respiração divina), a vida. Mas Oxalá havia se esquecido da cabeça. Oxalá não teria feito a cabeça do homem! Então Olórúm pediu à Àjàlà, o oleiro divino, para confeccioná-las. (1)

Àjàlà quando foi confeccionar Orí pediu a ajuda de Odú, e assim todos os Odús ajudaram à Àjàlà a confeccionar Orí. E assim nasceu Orí !

Orí é composto da matéria divina dos Odús, misturados em quantidade e organizados segundo a sabedoria de Àjàlà a pedido de Olórúm. Do material (òkè ìpònrí) que Àjàlà utiliza para confeccionar Orí se constitui èwò (tabu) para quem possuir esse Orí, e assim se determinam as interdições alimentares dos indivíduos, pois, comer do próprio material de que foi constituído, caracteriza ofensa séria à matriz da qual foi criado.

Todo o homem quando vai para o Aiyé, invariavelmente, deve passar na oficina de Àjàlà e escolher o seu Orí. Esta escolha se chama Kàdárà, oportunidade e circunstância, e ao fazê-la, está determinando sua natureza e destino (karma). (2)

Este momento ocorre da seguinte forma: a alma se ajoelha (posiçao fetal) diante dos pés de Olórúm (O Criador) e então lhe faz um pedido – Àkùnlé yàn – pedido esse que estará relacionando ao seu desejo de crescimento moral e espiritual. Então Olórúm lhe fixa o destino – Àyàn mó Ipín -  que Orí deverá seguir, e que geralmente atende aos desejos do próprio Olórúm e às necessidades das restituições que Orí deseja cumprir.

Recebe então as circunstâncias – Àkùn légbà – que possibilitarão os acontecimentos, geralmente ligado às questões de tempo/espaço, meio e todo o entorno necessário ao melhor cumprimento do destino.

Neste momento a alma recebe os seus èwós (tabus), interdições alimentares, de vestuário, de ação, etc.

Então Orí se dirige à Àkàsò (a fronteira entre Orúm-plano espiritual, e Aiyé-plano físico) e pede passagem à Oníbodè (o porteiro), que lhe interrogará o que fará no Aiyé, Orí lhe contará e mais uma vez se fixará nele o seu destino.

ÓRI E ÉLÈDA
“ORÍ lo nda eni
Esi ondaye ÒRÌSÀ lo npa eni da
O npa ÒRÌSÀ da
ÒRÌSÀ lo pa nida
Bi isu won sun
Aye ma pa temi da
Ki ORÍ mi ma se ORÍ
Ki ORÍ mi ma gba abodi”

TRADUÇÃO
“ORÍ é o criador de todas as coisas
ORÍ é que faz tudo acontecer, antes da vida começar
É ÒRÌSÀ que pode mudar o homem
Ninguém consegue mudar ÒRÌSÀ
ÒRÌSÀ que muda a vida do homem como inhame assado
AYE*, não mude o meu destino
Para que o meu ORÍ não deixe que as pessoas me desrespeitem
Que o meu ORÍ não me deixe ser desrespeitado por ninguém
Meu ORÍ, não aceite o mal

Créditos : Gil Bello

POSTAR TANTOS PONTOS POSITIVOS SOBRE MEU “PAI” É SIMPLESMENTE DEMAIS….

NORMALMENTE SÓ OUVIMOS E VEMOS O NARIZ TORCER QUANDO SE DIZ QUE É FILHO DE OXOGUIAN… MAS ASSIM COMO MEU PROPOSITO DE MELHORAR A CADA DIA, O TEXTO ABAIXO NOS MOSTRA QUE SÃO GRANDES AS QUALIDADES DE MEU “PAI”.

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Òrìsà Òsògìyán

Oxaguian no Brasil ou simplesmente Òrìsà Òsògìyán como ele mais gosta de ser chamado, Ewúléèjìbò “Senhor de Ejigbô” onde é tratado por Kábiyèsi, é um dos Orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredito sim nessa complexidade em se cultuar o maior dos Orixás, pois sua energia é tão suave, tão magnífica, magnânima e tão sutíl que nem todo mundo tá preparado para se harmonizar e poder interagir de seu Axé.
Conta um itãn que Oxun Aiyan’lá, de acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença de Osogiyan e fez todo o mercado lhe acompanhar. É por este motivo que filhas de Oxun Aiyan’la, a fim de agradar Osogiyan, enviam clarins para homenagear o Orixá, ato que se pode observar em alguns terreiros antigos.
Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oguian liga-se a comida. A sua festa é o ponto culminante do chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Osogiyan, assim, é o dono do inhame. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes, conhecido por Orixá comedor de inhame pilado (Oxaguian), pois inventou o Pilão para melhor preparar seu prato favorito.
O Grande Òsògìyán em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço, é o Orixá de todos os momentos. De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ògún, e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo grande ferreiro. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ògún, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Ògìyán que na volta foi aclamado Senhor vestindo-se de branco.
Diz-se também que o Orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá e dela ganhou os Atorís, com quem anda sem pisar no chão levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares. Por isso, filhos dessa Orixá se sentem plenamente atraidas por estarem perto dos filhos deste Orixá. Osogiyan põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço.
Osogiyan é o Orixá do renascimento, tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino. O terceiro Domingo do ciclo das Águas de Oxalá é representado pelo ” Ojó Odò” (dia do Pilão) de Òsògìyán, pois fecha o ciclo de renovação da existência.
Com o Orixá Xangô, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos Yorubas e seus descendentes, Oguian se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do inhame dado em forma de presente por Osogiyan. O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar a farinha e conservar melhor os alimentos. O Pilão representa a justiça, o equilibrio provocado pelas duas bocas do pilão, seus Ìsáns representam o poder ligado a Irôko ancestralidade, vida e morte, a espada representa a luta diária pela paz social.
Oxun é verdadeiramente o coração de Osogiyan, dizem os antigos que “Oxun é sua menina dos olhos”. Ela dança também para ele. É Oxun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina. Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Mantém relações também com Ewá, ilustrada através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida.Osogiyan como já falamos, relaciona-se também com os Orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Oxossi, considerado líder e cabeça da grande caçada. Com Òsanyìn interage estratégicamente com o pássaro, as magias e todo tipo de feitiçaria “Òsò”, prefixo de seu nome estabelece a parceria, o sumo da folha, etc. Com Obà divide a essência guerreira feminiana/masculina, a guerra através dos sentimentos do coração, do amor e da paz.
Osogiyan anda através de passos mais rápidos, determinados. Em guerra constante, a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada: “Baba Lorogun”, literalmente “pai da guerra”. O Orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Iyemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio, o principio ancestral, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças (ìyá Orí) que suaviza a sua chegada. Com Jagun forma talvez a parceria mais intrigante, caminham juntos e às vezes se confundem entre si, guerreiros inseparáveis.Airá,o conhecimento da impulsividade, dando a este exatamente o oposto, os dois lados da moeda, julgar pela razão e não pela emoção. Com Nàná a grande Iyabá se confraterniza, a grande metáfora vida e morte.
Òsògìyán representam o começo da humanidade, o sol nascente, a vida que chega no primeiro raio de sol Talvez tenha sido por isso que os africanos quando reorganizaram o seu culto no Brasil, lhe aproximaram tanto destes, a ponto de em alguns momentos ser confundido com eles.
Quando entramos em contato com os elementos, entramos em conexão com o mundo divino e seus respectivos senhores através de seu axé. Alguns se conectam a nós através da musica, outros através das àguas, do Fogo, da Terra, dos metais, minerais, do vento ou simplesmente do silêncio. Ele também se revela no silêncio na quietude e mansidão. Ele está em todos os níveis!
Com Odùduá, Orixá matéria que é responsável pela abertura no primeiro Domingo das “Águas de Oxalá”, a grande mãe progenitora feminina que representa a Terra, e com Olúfón (Oxalufan) Orixá cujo o templo é em Ifón, responsável pelo segundo domingo das “Águas de Oxalá”, a procissão de Obatalá,o Ebô repartido entre todos os presentes.
Senhor do Eji Opé, Íwuìn, Akinjolê, Babá Ikíre, Babá Eléèjìgbò, Oxaguian com tantos nomes que pode ser conhecido, Babá mí Òsògìyán, mò jùbá.

Créditos: Fernando D’Osogiyan