Religião, política e um pouco mais.

Ultimamente tenho estado bem eletrizada porque eu acabo ouvindo de tudo, vejo absurdo em um tanto de coisa e os assuntos mais “delicados” sempre afloram: valores morais, concepção de família, opção sexual, integridade… Tudo isso envolvido em propostas políticas. O horário político obrigatório não é nenhum filme de Woody Allen, mas eu paro pra assistir quando estou de bom humor. É lá que eu ouço esse tudo que citei acima e acabo juntando com outras notícias, outros acontecimentos e outras conversas.

Talvez hoje o meu texto saia confuso, mas eu vou dar um jeito de escrever um pouco de tudo que eu tenho visto e que invariavelmente também reflete na nossa religião e na no exercício da cidadania.

O país se autodenomina um Estado laico onde há liberdade religiosa para todos. Até onde vai esta liberdade? Para católicos e evangélicos? Como eles mesmos dizem: “são maioria e não serão superados por uma minoria” (escutei numa marcha da qual falarei mais adiante). Até esta tal liberdade realmente ser estabelecida espíritas, umbandistas e candomblecistas serão amontoados sob o meus estereotipo pejorativo; “macumbeiros”. Mas isso é uma outra história…

Já que falei sobre política e crenças religiosas, falo-lhes logo de antemão a minha opinião contrária a essa relação totalmente desarmônica para a sociedade brasileira. Sou criticada por uma gama de religiosos pertencentes a todos os segmentos que defendem e apóiam as manifestações de opiniões totalmente embasadas em crenças religiosas de grupos para influenciar nos processos políticos direcionados – ou ao menos que deveriam ser direcionados – ao bem estar da sociedade. E a cada tempo e acontecimento que passam, fico ainda mais inclinada e firme na minha posição. Para mim, política e religião se discutem sim, mas a discussão para exatamente no momento em que a religião visa moldar de acordo com os seus conceitos e verdades uma política que se dirige a todos os cidadãos. Vale esclarecer que eu não sou contra religiosos na carreira política, sou contra crenças religiosas interferindo em discussões que não se relacionam a religiões.

“A Dilma é a favor do aborto!”. Essa afirmação causou um avassalador redemoinho no quadro eleitoral do país nas últimas eleições presidenciais (não fui pró-Dilma nas últimas eleições. Só pra esclarecer). Ok, a cidadã é a favor da descriminalização aborto, mas e o que isso influencia na capacidade de governo dela? Isso pode modificar a atenção que ela poderia dar à deficiente educação, ao caos no sistema de saúde, ou à violência estarrecedora que todos nós estamos passivos? Estes fatores sim devem ser discutidos em tempo eleitoral, pois são relacionados às propostas dos candidatos e a possíveis mudanças no quadro do exercício da nossa cidadania: a escolha do nosso representante máximo.

O caso da atual presidenta enquanto candidata em 2010 é o exemplo mais global que tenho, porém isso vive acontecendo nos cargos menores também, como todos sabemos. E este exemplo citado por mim serve para ilustrar a falta de autonomia, de laicidade e de verdadeira cidadania que acabam por tornar a nossa sociedade deficiente quando a questão é pensar no bem para todos e na igualdade enquanto humanos.

No fim não levamos muito em consideração a capacidade das pessoas e sim ou algum estigma ou atributo maldosamente estereotipado por alguém, ou a “cara bonita” que preza pelos “bons costumes e pela família”.

O brasileiro adora discutir valores quando lhe faltam argumentos e estes mesmos brasileiros, sendo católicos, evangélicos, candomblecistas, umbandistas ou kardecistas falam sobre o mantimento de uma família brasileira. Uma típica família brasileira constituída em sua base por um homem e uma mulher.

“Deus não criou o terceiro sexo” (palavras do senador Magno Malta na Marcha contra o PL 122 se referindo aos homossexuais). E qual é o primeiro? Não existe nem primeiro e nem segundo sexo, de onde surgiria este “terceiro”? É uma tal tendência ao radicalismo que faz toda discussão terminar sempre em exaltação e ofensas a pessoas. O “terceiro sexo” ninguém sabe quem “criou” e nós sabemos que não existe! Um homem homossexual não deixará de ser homem, uma mulher não deixará de ser mulher. Então, e onde raios está este terceiro sexo? Na cabeça de radicais religiosos.

Tempo desses, enquanto mudava de canal, vi uma tal marcha contra a PL 122 (a qual me referi) feita lá em Brasília, organizada por um grupo de evangélicos. Eu parei para assistir. Exercer sexualidade da forma que lhe dá prazer não define caráter, não define capacidade e não exime nem outorga direitos ou deveres a mais. Se eu não acho certo uma mulher ser demitida pelo simples fato de ser uma mulher e um homem idem pelo simples fato de ser homem, então essa ideia de ter de demitir um homem ou mulher por sua predisposição sexual é ilógica, insustentável e fora de qualquer entendimento sobre igualdade e equidade em termos de cidadania. Mas existem os que pensam diferente e por pensarem diferente discriminam, segregam e matam. Isso mesmo, homofobia mata e a PL 122 surgiu pra isso, pra proteger um direito que já é inato: o direito de ir e vir sem que homossexuais sejam agredid@s no meio do caminho.

Muitos se vangloriam e reconhecem como elogio o tal “jeitinho brasileiro” – que em linhas gerais pode ser comparado aos termos ludibriar e tirar proveito de qualquer tipo de situação em benefício próprio.

Então vamos lá: temos uma população com muita moral; temos uma população que defende a ideia da família ter de ser constituída por um homem e uma mulher; o homem pode se embriagar que é visto com normalidade, a mulher se embriaga e é taxada de deselegante; a homossexualidade é uma anomalia e muitos pais prefeririam seus filhos criminosos a homossexuais; a família tem de ser bem constituída (leia-se o “bem constituída” como “formada por um homem e uma mulher”) pra dar exemplo à prole. Isso é bonito, isso é ter valores morais. Porém, furar fila, passar na frente dos outros, não devolver o troco que recebeu de forma equivocada são sinônimos de esperteza. Esperteza esta, passada nas casas dessa população altamente “moralista” que faz questão de manter a união entre o homem e a mulher, mas que, “por debaixo dos panos” trai, tem seus relacionamentos extraconjugais.

Oxe… É melhor esta demonstração de desrespeito dentro do casamento entre pessoas, do que ter de respeitar (e não apenas aceitar) homossexuais andando de mãos dadas nas ruas?

A nossa sociedade apresenta tanto antagonismo, tantos contrastes que entendê-la exige tempo e bastante reflexão.

Percebo uma grande massa que ver política como arma contra os que vão contra suas convenções religiosas e morais, e não como o ato de organização sadia de uma sociedade. Este rebanho por muitos e muito anos ainda será levado e persuadido por aqueles de português bem falado, concordância perfeita e exaltação de voz e gestos empolgantes por caminhos que, como de costume, o rebanho nunca sabe onde resultará, mas o segue.

Todo mundo prega o respeito, mas poucos o exercitam. Nesse período eleitoral, de forma escancarada ou implícita, isso me parece mais que claro: poucas ideias realmente eficientes e muita falácia.

Créditos – Casa de Oxumare   –  By Dayane

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