ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS

ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS

 

“Ko sí Òòsà tí i dá´ni gbè léhìn Orí eni”

“Nenhum Orixá abençoa uma pessoa antes de seu Orí”

Este oriki (verso sagrado) não deixa dúvida sobre a suprema importância desta divindade pessoal, inclusive, acima dos Orixás! Orí porém, continua sendo um enigma no conhecimento popular do culto.

Traduzindo, Orí significa cabeça, entretanto quando se busca aprofundar algo mais os devotos hesitam, titubeiam, emudecem. Se Orí é a mais importante de todas as divindades, porque este desconhecimento? Principalmente de uma divindade que reside justamente dentro de nós? Porque, de todos as energias,  Orí é o mais misterioso?

ü  Voltando às Origens.

No princípio dos tempos, da criação, Odudua havia criado a Terra, Oxalá havia criado o homem, seus braços, pernas, seu corpo e Olórúm insuflou o èmí (respiração divina), a vida. Mas Oxalá havia se esquecido da cabeça. Oxalá não teria feito a cabeça do homem! Então Olórúm pediu à Àjàlà, o oleiro divino, para confeccioná-las. (1)

Àjàlà quando foi confeccionar Orí pediu a ajuda de Odú, e assim todos os Odús ajudaram à Àjàlà a confeccionar Orí. E assim nasceu Orí !

Orí é composto da matéria divina dos Odús, misturados em quantidade e organizados segundo a sabedoria de Àjàlà a pedido de Olórúm. Do material (òkè ìpònrí) que Àjàlà utiliza para confeccionar Orí se constitui èwò (tabu) para quem possuir esse Orí, e assim se determinam as interdições alimentares dos indivíduos, pois, comer do próprio material de que foi constituído, caracteriza ofensa séria à matriz da qual foi criado.

Todo o homem quando vai para o Aiyé, invariavelmente, deve passar na oficina de Àjàlà e escolher o seu Orí. Esta escolha se chama Kàdárà, oportunidade e circunstância, e ao fazê-la, está determinando sua natureza e destino (karma). (2)

Este momento ocorre da seguinte forma: a alma se ajoelha (posiçao fetal) diante dos pés de Olórúm (O Criador) e então lhe faz um pedido – Àkùnlé yàn – pedido esse que estará relacionando ao seu desejo de crescimento moral e espiritual. Então Olórúm lhe fixa o destino – Àyàn mó Ipín –  que Orí deverá seguir, e que geralmente atende aos desejos do próprio Olórúm e às necessidades das restituições que Orí deseja cumprir.

Recebe então as circunstâncias – Àkùn légbà – que possibilitarão os acontecimentos, geralmente ligado às questões de tempo/espaço, meio e todo o entorno necessário ao melhor cumprimento do destino.

Neste momento a alma recebe os seus èwós (tabus), interdições alimentares, de vestuário, de ação, etc.

Então Orí se dirige à Àkàsò (a fronteira entre Orúm-plano espiritual, e Aiyé-plano físico) e pede passagem à Oníbodè (o porteiro), que lhe interrogará o que fará no Aiyé, Orí lhe contará e mais uma vez se fixará nele o seu destino.

ÓRI E ÉLÈDA
“ORÍ lo nda eni
Esi ondaye ÒRÌSÀ lo npa eni da
O npa ÒRÌSÀ da
ÒRÌSÀ lo pa nida
Bi isu won sun
Aye ma pa temi da
Ki ORÍ mi ma se ORÍ
Ki ORÍ mi ma gba abodi”

TRADUÇÃO
“ORÍ é o criador de todas as coisas
ORÍ é que faz tudo acontecer, antes da vida começar
É ÒRÌSÀ que pode mudar o homem
Ninguém consegue mudar ÒRÌSÀ
ÒRÌSÀ que muda a vida do homem como inhame assado
AYE*, não mude o meu destino
Para que o meu ORÍ não deixe que as pessoas me desrespeitem
Que o meu ORÍ não me deixe ser desrespeitado por ninguém
Meu ORÍ, não aceite o mal

Créditos : Gil Bello

3 comentários sobre “ORÍ – MORADIA DE “NOSSO” DEUS

  1. Apesar de ter nascido em um país com mais de 70% de sua população com origem afro (Brasil), não fui criado segundo estes preceitos, sendo assim criei e deixei ser criados vários pré-conceitos em minha cabeça. Outro dia estava lendo sobre a religião do Candomblé e ao notar que se fazia “sacrifícios” com animais para oferece los em rituais religiosos, meu coração tremeu, fiquei inquieto, achando um absurdo, continuei lendo e as justificativas foram se apresentando e assim li uma que me deixou desconfiado achando que era mera desculpa para justificar o que pra mim era um ato de covardia, o escritor dizia que se ofereciam os animais a mãe terra e aos santos como fonte de energia primaria, energia pura, que é alimento e que quem se alimenta do corpo é o ser humano e não entidades, estes se alimentavam da energia vital. Daí me pôs a fazer uma analogia com o que eu vivo, sou de base protestante, família tradicional de pastores de um lado e fervorosos católicos de outro, sou também um avido apreciador de carne, nasci em berço onde se comemora tudo com churrasco, se não tiver uma carne no prato a refeição não está completa, e tínhamos vacas, galinhas, cavalos, porcos, cabritos, animais em geral que tinham nomes próprios cada um a falta de criatividade e a diversidade dos animais nos obrigava a chamar as crias com nomes ligados aos genitores, a égua Cigana tinha filho que se chamava Cigano, a vaca Preta tinha filha que se chamava Pretinha e assim por diante, me lembro de uma lição que meu pai me deu quando eu estava por voltas de 8 anos de idade, uns 2 anos antes ele me presenteou com um porquinho que me tio dizia que era da raça conhecida vulgarmente de caruncho, por que tinha porte médio, este porquinho foi crescendo comigo andava por onde eu fosse, eu o chamava adivinham? De Carunchinho, passados estes dois anos e pouco ele já estava adulto e muito gordo, era época em que se anunciava o nascimento de Cristo, eu estava fora de casa não me lembro onde, ao chegar em casa vi uma movimentação perto do curral onde tinha uma pomar de laranja que minha avó tinha plantado a muitos anos e que nos ofertava laranjas deliciosas, está arvore era grande e tinha forte galhos, e foi em um deste que vi alguns animais dependurados com o pescoço cortado de cabeça para baixo para escorrer todo o sangue, e olhei meu pai estava trazendo para perto da arvore o Carunchinho, ao ver oque se daria ali sai correndo pra dentro de casa, um tempo depois meu pai veio e me viu na sala e me chamou para ajuda lo eu disse que não queria, e ele me disse vou te dar outro…e disse são apenas animais eles nos servem de comida e eu disse, mas, por que se tem tanto animal lá, por que o Carunchinho, meu pai sorriu e disse e que diferença tem ele dos outros? Descobri que eu diferenciava os animais pelo sentimento que eu colocava em cada um, e que não via o animal como sendo todos iguais, e hoje já adulto e longe de todos os pré-conceitos, estudando todas as possibilidades que me aparecem, me deparo com Candomblé um religião que respeita todos os animais incluindo os humanos, e faz sacrifícios religiosos para comer os alimentos que eu sempre comi e nunca me dei conta de onde saiam….Ainda não esta fácil descobri que quem pratica a matança sou eu, ainda não esta fácil desaprender a lição que meu pai me deu, sei que me foi muito útil até agora, todas as lições que apredi na vida me ajudaram a chegar até aqui, não sou do tipo de quem nega seu passado, eu agradeço cada momento que vivi, hoje só quero ser integro nas minhas escolhas, ser eu e somente eu a escolher meus caminhos.

    • Aconteceu o mesmo comigo. Nasci em um lar espírita Kardecista, onde os entendimentos são blindados e conceitos são rígidos sem abertura para debate e ampliação do conhecimento. A primeira vez em que tive contato com uma cerimônia de candomblé, o que aconteceu a mais de 20 anos, confesso que minha vontade foi a de fugir e ignorar aquele momento, o que teria sido mais fácil, me tornando mais um sem informação e consequentemente sem conhecimento de causa, criticando de forma até mesmo insana algo que foge dos paradigmas sociais e religiosos, das convenções que permitem que a vasta maioria conviva em “zona de conforto” quanto ao que exige raciocínio lógico. O tempo foi passando, e uma longa história foi sendo construída, história que me levou a compreender que de fato, como você bem cita em seu texto, nós somos os grandes praticantes de matanças sob a alegação de que necessitamos de alimento, mesmo que para tal seja necessário matar. E, aprendendo mais sobre a energia vital que há no plasma do sangue, que se torna essência fundamental para que nossa energia seja tratada, recuperada, ampliada, convivo com tranquilidade no meu presente com os conceitos e preceitos de uma religião (se assim podemos denominar, mas sendo este um tema para outros vários artigos) que possui fundamentos belíssimos, e, que ao conhecer os fundamentos nela presentes posso perpetuá-los ao longo dos tempos.

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