FALANDO AINDA SOBRE SACRIFÍCIOS…

PARTE V

 Existe uma Ordem Cósmica, que foi criada por Deus, uma sabedoria superior, que nós não conseguimos compreender ainda. Vivemos em um mundo em que a vida subsiste da morte. Necessitamos comer! E algum ser tem que morrer para que sigamos vivendo!

Todos comemos peixe, galinhas, galos, patos, coelhos, bois, vacas, porcos, etc,etc. Os vegetarianos? Bom…vegetais pelo que sabe-se também possuem vida. O argumento de um vegetariano também carece de reflexão: “- Mas os vegetais estão em uma escala de evolução muito mais inferior!”  Então qual é o critério ? e o ser humano para Deus; os animais para os Anjos, Santos e Orixás…Não seria este o mesmo critério? Não é compreensível mas a quem cabe destacar o papel de cada um nesta cadeia alimentar ? e quais os parâmetros ?

 Deve-se então ter em mente que alguns seres humanos se consideram muito mais evoluídos que outros; poderiam eles então matá-los e comê-los? A questão é que temos de levantar um critério para compreendermos exatamente esta lei!! O que não podemos é levantar um discurso em que existe DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS! Seria um pensamento torto e desviante e, portanto, não verdadeiro. Obedeceria aos interesses daqueles que o proferem, fazendo curvas ao interesse do discursante. É necessario encontrar o ÚNICO PESO E MEDIDA desta lei ! assim sendo encontrar a verdade imparcial, reta, honesta e sem curvas. Que não se demoverá para favorecer ninguém, nem ao discursante, como foi o caso de Cristo, por exemplo. Devemos ter muito cuidado, pois é tentador advogar em causa própria!

 O critério seria, só se pode matar para se alimentar. Bom, então está certo novamente, no sacrifício ao culto o Orixá come, a Terra come e a comunidade toda come, é crime desperdiçar o que seja, mesmo as penas ou o couro, ossos e chifres…. Diferente do que a nossa sociedade faz quando sacrifica milhares e milhares para nós comermos. Além de não aproveitarem todo o animal, congela os corpos nos supermercados e frigoríficos em quantidades e quando passam de seu “prazo de validade” são então jogados fora, em lixeiras ou queimados (sem sequer se oferecer o sacrifício à divindade), e muitas vezes quando dita o mercado que há este alimento demasiado, baixando os lucros do nosso atualmente sagrado CAPITALISMO, queima-se alimentos bons (sem sequer se oferecer à Deus o holocausto??), um desperdício em nome do Sagrado Capitalismo e TODOS NÓS participamos disto, pois trabalhamos e vivemos alimentando este sistema…temos nossa parcela de culpa sim !

 A questão é que estamos intoxicados demais, nos tornamos urbanos demais, perdemos o contato até com a natureza… O que dizer então da sabedoria por detrás da obra divina – a Mãe natureza?

 Para nós, ocidentais, impregnados pelas NOVAS doutrinas cristãs,  os frangos nascem pelados sem cabeça dentro do frigorífico do supermercado; as vacas nascem esquartejadas dentro dos mesmos frigoríficos dos açougues. Assim comemos sem culpa, continuamos puros e civilizados. Tentamos RECALCAR a nossa culpa e a nossa participação nesta “selvageria”. Tentando sermos o que ainda não somos e sendo mais bizarrros ainda! Ou vamos crer que a matança que ocorre nos matadouros é limpa, indolor e civilizada ? “-Ah! Pelo menos eu não estou vendo o sangue e o animal a se debater, a ´gritar´!” Qual seria a questão então, nao vermos? Ignorarmos? Fazer de conta que nao é? Como fazemos? Recalcar? No melhor estilo neurótico? Criar um discurso assim de dois pesos e duas medidas? A defesa do Hipócrita? Seguidores de um Presidentes que nada vê ou sabe ? Seremos iguais a ele ? Ou buscarmos compreender, de frente, a realidade natural? Devemos impor nossas idéias sobre a ordem natural?

 E as questões industriais, destruindo os ecossistemas, e matando milhões de vidas, na sujeira de restos químicos? Nossos restos! Pois todos consumimos roupas, cosméticos, andamos de carro, ou de ônibus, que seja entre outras coisas. Mas, como “NÃO VEMOS” não temos culpa. Não estamos fazendo, nem participando. E somos seres civilizados, divinos e acima de toda esta selvageria, no melhor estilo defesa de Avestruz: “cabeça enterrada no buraco”, da ignorância, ou do recalque mesmo, podemos nos compreender melhores que tudo isto e julgarmos estas práticas selvagens, primitivas e hediondas que é o sacrifício de animais.

 Na cultura Hindú para conseguirmos chegar a uma percepção e consciência capazes de compreender as leis naturais e divinas é necessário superar os nós que limitam-nas. São 3 nós: o Nó de Brahma- de nossas limitações físicas, de nossas necessidades físicas e de nossas fragilidades físicas (medo, raiva, fome, desejo), nossa consciência e percepção pessoais, depois teríamos que desfazermos do segundo nó, o Nó de Vishnu- defazermo-nos de nossas limitações vinculadas à nossa educação temporal, nossos códigos humanos de leis e moral, nossa limitação cultural (geográfica e temporal) em nome de um entendimento mais universal, inclusive do entendimento estritamente humano, estar mais além das limitações impostas por nossa cultura, aprendizado, classe social, nacionalidade, temporalidade e raça. E então desfazer-se do terceiro nó, o Nó de Shiva- o nó da limitação da percepção dual – bem e mal, vida e morte, masculino e feminino, início e fim, etc, etc., atingindo assim pureza suficiente de percepção e consciência para começar a realmente compreender a grande sabedoria Divina!

 Claro que um Orixá é um Ser Supremo!! Orixá não necessita desse axé! O Orixá não bebe sangue! Quem precisa somos nós! Imagina se Oxum precisa de que lhe ofereçam um peixe, por exemplo; ela é a dona de todos os rios e cachoeiras, tem milhões de peixes e outras riquezas. Fora o que se afoga neles!! Poderia comer o que quiser, nem disso ela não precisa. Até porque no fundo Oxum é muito mais que apenas os rios e as cachoeiras! Mesmo que todos secassem, Oxum permaneceria viva! Eles são apenas a sua representação no Ayê!

Orixá precisa desse axé tanto quanto Deus (na mitologia Cristã) precisava do sacrifício de Jesus!

Não é para ELES, é para nós! Quem precisava ser salvo, não era Deus, mas a humanidade! O Orixá já está iluminado, para ele acabou! Assim também para Deus, obviamente!

Mas tanto Orixá, quanto Deus, se preocupam conosco e buscam nos ajudar a atingir nosso Destino Supremo – A Libertação Espiritual ou Iluminação!

Desta forma nos oferecem outros caminhos mais fáceis! O Caminho da Graça!

 

¨     OS RITUAIS  DE SACRIFICIO

 Os reinos animal, vegetal e mineral estão à disposiçáo do ser humano. Eles liberam energias que são dirigidas ao destino especificado, segundo os objetivos. Este processo, que os menos esclarecidos costumam chamar de feitiçaria, é denominado magia.

 Cada Orixá possui um determinado animal, vegetal, mineral e comidas, e tudo libera energia. É uma alquimia que depende de muita habilidade, como a do Ogan, que sabe exatamente como segurar uma faca, como a yalorixá ou babalorixá que conhece os ingredientes do prato, o encantamento determinado, que conhece as regiões do corpo humano onde estão localizados os centros de força em que atuam os Orixás e o que eles representam por ocasião dos oferecimentos. Convém lembrar que certas partes do corpo humano são tocadas e utilizadas por ocasião de determinado prescritos, como por exemplo o Bori.

 Todo ser humano possui um corpo físico, o Ara, e um corpo metafísico, denominado Enikéji, literalmente a segunda pessoa. A magia dos trabalhos que se realizam no corpo físico tem por objetivo penetrar o mundo metafísico, alcançar a matriz para modificar ou restabelecer o equilíbrio da cópia, através das energias mineral, vegetal e animal. Orientado pela intenção, o desejo atinge o alvo, liberando assim propriedades necessárias.

 Recebendo a vida, a natureza pode interagir e preservar o da pessoa, estabelecendo uma troca. Os animais são selecionados pela sua natureza, pela sua força, por sua tranquilidade e o calor de seu corpo, de acordo com a necessidade do momento. O alimento é a base da sobrevivência e será por meio dessa forma de compreensão que haverá posterior repasto comunitário entre todos os membros do Candomblé.

 O pombo é o animal com o sangue mais quente, e os animais de quatro patas, com o sangue mais frio. O pato representa a água, a galinha d’angola, o fogo, o galo, a terra, e o pombo, o ar.

FIM.

SACRIFICIOS PARTE IV

PARTE IV

No culto afro mesmo, não utiliza-se apenas o sacrifício de animais como o ÚNICO sacrifício! Existe todos os outros, abnegação, privação, etc…. jejuamos, evitamos utilizar determinadas cores, comer certos alimentos, oferecer “gbáduràs” (rezas), “orikis” (recitaçao de versos divinos), vigílias, comidas secas (sem sacrifício de animais) e então o “ebó-ejé pupà” (sacrifício animal); como pode-se perceber este último é o último recurso, a última apelação e somente o jogo ou o Orixá pode permitir ou não.

Infelizmente algumas casas do culto perderam totalmente o conhecimento dos ritos antigos e executam, realmente, uma verdadeira MATANÇA. Uma chacina sem precedentes em nome de um ritual, o que claramente o culto condena.

Deve ser sacrificado apenas o suficiente, o que baste. O exagero é por conta do homem, e não da divindade. Isto acontece devido ao esquecimento às leis do sacrifício, e da façanha de um culto de homens para os homens pois, infelizmente nesta forma de exercer o culto, Orixá não é suficiente – os egos inflados dos sacerdotes que falam “em nome do Orixá”.

Como todo o sacrifício, existem leis muito rigorosas a serem cumpridas, como ensina a sabedoria antiga, e não é diferente para o sacrifício de animais, ou o que seja! Primeiro há de existir a necessidade prima deste sacrifício; perguntar à divindade se não existiria outra chave. Segundo, no caso de afirmativo, saber exatamente o que deve ser sacrificado e como deve ser sacrificado. Sabendo-se isso, deve-se pedir à divindade que nos guie ao animal certo, que deve ser recolhido com carinho. Devemos nos lembrar que este ser foi designado pela divindade para servir à Deus e redimir o mal de alguém ou de uma comunidade, ele será o mensageiro das boas novas, e merece todo o respeito, carinho e consideração por tal. Ao chegar o momento deve ser banhado com os axés, enfeitado devidamente, e deve-se saber se a divindade o aceita, se é o ser certo. No caso de afirmativo, deve-se saber se o ser aceita ser sacrificado e então entra o preceito da folha, da cabeça e/ou do jogo – O jogo entra sempre!! Uma vez que esteja tudo ok, então é executado o sacrifício exatamente como determina a divindade. Sempre no clima do respeito e agradecimento.

Por fim, tudo saindo como deveria ser, a graça encaminhada, segue-se a festa pelo sucesso do ritual. A carne do animal que não entrar no sacrifício deverá ser consumida, por todos da comunidade em uma reunião, celebração de grande alegria. Alegria porque a Graça está a caminho e Deus mais uma vez nos foi bondoso e fiel, não nos esquecendo e a alma do ser sacrificado também conseguiu cumprir o seu caminho (destino), e agora está advogando por nossa causa tendo se elevado imensamente na ordem Cósmica, tal qual Jesus.

No Awó (culto, ou mistério) africano, todos nós estamos aqui para cumprir um destino em relação à Ordem Cósmica. E não para desfrutarmos a vida de modo egocêntrico, para o próprio gozo dos sentidos. Podemos gozar o que o Orixá e Deus (Olodumaré) nos permite em sua infinita generosidade, mas sem esquecer que estamos em MISSÃO aqui, e que devemos retornar à Deus o mais pronto ao terminá-la, aceitando todos os sacrifícios que consigam nos levar até Ele (como está escrito no Livro de Ifá no Odù Irosun Mejì – Orì X Elenìnì!). Assim como o animal, aceitamos todos os sacrifícios de nossa existência, que não é menos sacrificada.

CONTINUA ………………….

SACRIFICIOS PARTE III

PARTE III

 Há muitas outras formas de sacrifício, como vimos nos conceitos acima, ou a privação (como o jejum por exemplo); a renúncia (deixar de usar uma cor, deixar de adquirir um bem que lhe cabe, etc); a abnegação (desfazer-se de uma coisa que se está apegado, cumprir um trabalho ou obrigação apenas com o interesse do sacrifício, etc), assim como a imolação, o holocausto, entre outras várias formas, tendo sempre em comum o interesse na redenção ou favor divino à custa da dor, do desapego, da submissão ao poder divino.

 Ora, uma certa pergunta que normalmente não cala em nossas mentes : “- Se existem tantas outras formas de sacrifício, porque recorrer à esta, em que se sacrifica uma vida desta maneira?”  A resposta já está colocada acima: cada sacrifício é capaz de redimir um pecado, um mau-karma, o que seja e que, dependendo do mal, é necessário um sacrifício cada vez maior. Haja visto Cristo, que pediu ao PAI: “Afaste de mim este cálice!”, mas ao sentir a negativa do PAI, logo completou: “seja feita a Sua vontade e não a minha!”.

 Então agora outra pergunta: “Seria Deus tão cruel para escolher a bel prazer este tipo de sacrifício, podendo escolher outros, e ainda executá-lo desde os Céus com requintes de total impiedade e crueldade?” Acho que fica muito claro que não havia outro sacrifício para aquele mal, para consertar a deformidade da época. Nem toda a oração ou jejum do mundo – sacrifícios que Cristo executava a miúde poderiam corrigir esta situação. Ou será que faltava consciência da humanidade acerca de seus erros e necessidade reparação?

 Na Índia, com a chegada da Era de Kali, Saraswati aparece e apresenta o japamala (rosário oriental), instaurando a ordem do sacrifício pela recitação de mantras para acabar com o mal, a ordem desta era de Ferro, já que os conhecimentos dos antigos rituais e comunhão com Deus estariam esquecidos.

 Semelhante ao que a Virgem Maria, em suas aparições, também solicita: Rezem! Mas nenhuma das duas está se referindo ajoelhar-se 5 minutos e rezar uma dúzia de Pai-Nossos ou Ave-Marias, ou Hare Krisnhas, ou Namah Shivaias…. Mas rezar a cada dia milhares e milhares de vezes, como manda o sacrifício de orações, rezas e mantras antigos…. Existem até prescrições 100.000 mantras para Lakshimi, 500.000 para Durga… e assim vai…Sarawasti mesmo pede 100.000 mantras para conceder-lhe a Graça….Esta prescrição é para que consigamos gerar o sacrifício suficiente para corrigirmos uma situação, e mesmo assim, depende de que mal tentamos redimir.

 Junto com o mantra, obviamente, está implicado a concentração na divindade, a contrição, a devoção e a privação, pois tem que “sair” da vida para conseguir levar a cabo tantos mantras e sobretudo a perseverança e a fé, de levar até o final este sacrifício, assim como as promessas Cristãs…subir de joelhos uma escadaria sem fim…. E comprometer os joelhos e sua saúde, o esforço, a dor, a fé! E, novamente, dependendo de que mal, o tamanho do sacrifício cresce. Quantas escadarias são tão íngremes? Ou quantas vezes subí-las?

CONTINUA…….